segunda-feira, 23 de setembro de 2013

9 - Eu alucinado?

Como comentei anteriormente, sempre tive o péssimo hábito de acreditar no que as pessoas dizem. E, pior ainda, sempre achei que as pessoas pensavam antes de falar!
Portanto, sempre que alguém pedia algo, eu fazia o que havia sido pedido.
Faço uma pequena digressão novamente. Na época em que trabalhei na Amazônia, passei por uma situação muito instrutiva. Eu havia pedido algo para meu capataz, e ele não fez como eu achava que deveria ser.
Ele respondeu: “doutor, eu fiz exatamente de acordo com as suas instruções!”.
Eu continuei: “eu não dei instrução alg..........”.
Parei a frase pela metade, pois percebi que não poderia querer que ele fizesse exatamente como eu faria, sem dar para ele as devidas instruções.
Passei a ser extremamente prudente nas interpretações. Comecei a ser extremamente dialógico na execução do que quer que fosse solicitado. Sempre fui curioso, agora parecia mais curioso ainda.
Sempre que um pedido ou solicitação parecia oferecer mais de uma execução operacional, eu buscava entender, de qual maneira o solicitante desejava. Talvez a minha arquitetura de raciocínio seja muito visual e eu precise ter um entendimento mais abrangente do que se solicita.
Mas fui percebendo que esta dialogia não era bem recebida em determinados ambientes. Minha atual companheira, sempre questionou o excesso de perguntas para se fazer algo. Eu explicava que era para garantir, ou pelo menos reduzir, as possibilidades de erro. Algumas vezes ouvi que viver era correr o risco de errar. Tudo bem, até concordo, mas tudo depende de que maneira este erro é recebido!
Sempre me considerei bastante observador, talvez isto me faça tentar antever eventuais problemas operacionais. Tenho o lado “curioso praticante” que me leva a querer saber, independentemente de eu ter necessidade daquele conhecimento. Não sou utilitarista do conhecimento, com o tempo desenvolvi a paixão por aprender e isto me motiva. Seria uma espécie de conhecimento passional. Mas a vida tem mostrado que em determinados ambientes, como o doméstico, estes procedimentos não são um sucesso.
Cito uma situação emblemática. Certa feita ouvi a seguinte solicitação: “ Minha esposa falou: “ pegue meu óculos na cozinha”.
Fui à cozinha e não achei os óculos. Procurei até na geladeira, por via das dúvidas! E nada!  Quando voltei com a missão fracassada, ouvi que eu não entendia “linguagem figurada”, pois era para pegar a bolsa no quarto! Para mim, aquilo não era linguagem figurada e sim erro de informação.
Silenciosamente eu me questionava se havia ouvido corretamente. Por mais que eu tentasse acreditar no erro auditivo, mais me apercebi de que estava tentando contar uma mentira centenas e centenas de vezes, para ver se ela acabava virando verdade. E eu acreditaria nela.
Mas parei antes da milésima repetição! Felizmente!
Diversas outras vezes, passei por situação semelhante. Sempre com a garantia posterior de que quem solicitou verbalizou corretamente e quem ouviu é que ouviu errado.
Quantas vezes precisei repetir para mim mesmo, enquanto procurava algo:
“Cara, você sabe que existe, você já viu, já viu pelo menos uma vez, você acredita que existe, geralmente costuma existir!”
Parece um mantra que busca apoiar um pouco de lucidez! Quando alguém garante que sempre fala correto e você sempre entende errado, levanta-se a hipótese de alucinação recorrente. Mas quando em diversos casos existem testemunhas que garantem que o que você ouviu é o que foi dito, isto causa certo alívio. Eu não estou pirando, ao menos, ainda não.
Ainda que não seja a etimologia correta da palavra, costumo dizer que alucinação poderia indicar, a partir de uma fragmentação da palavra, o prefixo “a” como negação e lucinação, a existência da luz. Então, alucinar seria estar sem luz. Claro, não me furto a uma boa piada: “quem deixa de pagar a conta de luz fica alucinado”. Não, deixar de pagar a conta de luz e ficar no escuro não é alucinação, pois as contas são reais, elas existem.
“Eu não creio em contas, mas que elas existem, existem!” (daria um belo lema urbano contemporâneo)
No quesito alucinações, posso descrever uma miríade (sempre quis usar este palavra) de casos, mas vou descrever o que julgo ser emblemático.
São tantos casos que hesito na escolha. Vou escolher ao acaso, pois a probabilidade de eu pegar um significativo é bastante grande. Neste caso, o universo conspira a favor, o que no fundo é conspirar contra!
Recordo-me de quando comecei a lecionar para pós  graduação e licenciados que buscavam a segunda graduação. Claro, quando fui me candidatar, a Coordenadora não me conhecia, e, portanto, não tinha a “obrigação” de acreditar que eu poderia ser um docente acima de uma linha de mediocridade. Ela leu o meu currículo e disse que “iria pensar”.
Algum tempo depois ela “pensou” e me ofereceu para ministrar uma aula em um polo pedagógico em um ponto distante da cidade. E põe distante nisso! Em sempre me considerei um cara bastante conhecedor das “quebradas” da cidade, e não sabia onde era. Claro, uma consulta no google maps e tudo pronto, o roteiro estava feito. Eram cerca de 50 km da minha casa. Iria faltar pouco para “ficar mais caro o molho do que o peixe”. Mas quem precisa vai atrás. E fui.
Quando cheguei no lugar, entendi por que os outros docentes (talvez mais lúcidos) não gostavam de ir dar aula lá. Levei cerca de uma hora para chegar lá, de sábado e em cima de uma motocicleta.
Ministrei a aula e ao que tudo indica, esta foi bem recebida pelos alunos. A coordenadora comentou vagamente que teria havido alguns elogios. Pouco tempo depois eu fui chamado para dar aula em outro polo, agora mais perto, distando cerca de 30 km. Encarei como um progresso. Novamente a aula teria sido bem recebida, de tal sorte que em pouco tempo fui convidado para dar aulas em um ponto bem mais perto, cerca de 10 km!
Fui convidado para dar aulas de um componente que não era o de minha formação, ainda que eu tivesse algum “conhecimento passional”. Eram aulas de história para professores da rede pública que buscavam uma segunda graduação.
Quem precisa, não escolhe trabalho! E de cara, topei. As aulas eram aos sábados e o volume de informações que deveriam ser passadas era bastante, gigantescamente, grande. Eu tinha de fazer mágicas para ministrar a aula dentro do tempo estabelecido (6 horas com um intervalo para almoço, de uma hora).
A minha estratégia foi a de focar em tópicos que permitissem o entendimento reflexivo do período histórico lecionado. Eu procurava fazer uso de recursos didáticos que tornassem a aula motivadora. E acho que funcionou!
Uma vez olhando o Facebook (sim, otários também frequentam as redes sociais), encontrei um grupo de alunas que diziam que pela primeira vez não tinham vontade de fugir da aula! Eu tomei aquilo como um elogio. Salvo ser um caso de homônimo completo, o comentário era sobre a minha aula e sobre mim. Recordo-me de um breve umedecimento facial que pareceu classificar como produtiva a minha atividade.
Cabe aqui esclarecer que eu sempre achei a atividade docente como interessante. Apesar de ter crescido ouvindo de minha mãe “com tanta coisa boa para você gostar, você vai gostar de dar aula!!!!”.
Mas esta minha experiência negativa não se restringiu à infância e adolescência. Recordo-me de uma vez ter escutado uma antiga sogra comentando com uma vizinha, que eu gostava de dar aulas. O comentário era feito de uma forma negativa, como se a docência fosse algo similar a uma doença contagiosa e incurável.
Bem, do ponto de vista da remuneração, em geral a docência fica em um estágio intermediário entre o vergonhoso e o enojante. Talvez por este motivo as pessoas vejam o docente como um otário praticante. Recordo que meu pai dizia “quem sabe faz, quem não sabe, ensina”. No que era endossado por minha irmã.
Um ponto negativo (existem tantos!) de se ser otário praticante, ou simplesmente OP, é o de que você sempre esbarra em uma dicotomia desagradável ao contar o seu dia a dia. Ou te chamam de otário ou de mentiroso. Nenhuma das alternativas é elogiosa a ponto de se colocar no currículo.
Vem-me a partir da memória de que uma vez, minha esposa comentou que eu ia “brincar de ser professor” aos sábados. Eu fiquei um pouco chocado diante da aparente seriedade da afirmação. Eu acreditava, salvo hipótese alucinatória, que estava fazendo minha atividade a contento, o seja, atingindo os objetivos educacionais, e mais que isso, sociais.
Continuei esta atividade até que ouvi que “as aulas que eu dava, não existiam”. Quando se vê (ou se faz) alguma coisa, e que tal não existe, a alternativa da alucinação é totalmente pertinente.
Nesta época, eu cheguei a ir conversar com minha irmã, perguntando primeiramente se ir dar aquelas aulas, seria algo vergonhoso. Ela disse que não, apesar de que historicamente eu me recordava que ela dizia que ensinar não dava futuro para ninguém.
Ela respondeu negativamente. Ainda bem! Prossegui comentando que havia ouvido que aquilo que eu fazia aos sábados não existia. Eu precisei explicar uma segunda vez, pois ela parecia não ter entendido o que eu havia dito. Parecia uma situação irreal, ela parecia se recusar a imaginar que eu havia dito aquilo.
Do auto de uma racionalidade quase dogmática ela perguntou: “Você está recebendo por estas aulas? Consegue pagar as suas contas com esta remuneração? O banco aceita o que você diz recebe?”
Diante de todas respostas afirmativas, ela disse que aquilo, então, existia. Eu me senti aliviado, e, claro, ridículo, por ter chegado a ir questionar tal situação. Minha irmã parecia me lançar um olhar de estranheza.
Ainda nesta atividade docente, posso registrar outro fato de difícil credibilidade. Minha esposa, que frequentemente comentava minha incapacidade educacional de lecionar história, uma vez que não era graduado na área, me perguntava se eu não “arrumava uma boquinha” para ela também dar aulas. Parecia algo estranho pois ela iria “fazer algo que não existe”!
Um dia surgiu uma oportunidade e eu previamente liguei para ela perguntando se toparia dar aula no tal lugar “tão, tão distante”. A resposta foi afirmativa. Eu já estava dando aula na sede, o que me deixava mais aliviado. Ela perguntou se eu não queria trocar com ela, de tal sorte que eu iria para “tão, tão distante” e ela daria aulas na sede.
Ainda que eventualmente eu topasse, as aulas não eram atribuídas ao acaso, e eu poderia estar arrumando problemas, trocando de turmas sem consulta prévia.
Confirmei na escola que ela topou dar aulas para aquela turma. Isto era uma quinta feira pela tarde e a aula seria no sábado. Logo que confirmei, ela me disse que eu deveria preparar o material de aula para ela. Sim, você leu certo! E eu, com certa habilidade de preparar material didático, em menos de duas horas liguei e falei “já mandei o material para a sua caixa postal”! Sim, você leu novamente certo!
Tudo correu bem nas 24 horas seguintes, até que na noite de sexta feira, ela me avisou: “se você não for lá me levar amanhã eu não vou”!
Eu tentei negar que aquilo estivesse acontecendo, mas em face da exiguidade do tempo, não teria a oportunidade de repetir a mentira por mil vezes.
Programei para acordar de madrugada, pois eu precisava ira até “tão, tão distante”, comboiando ela, e voltar para o polo sede e dar a minha aula.

Aquela velha máxima “urubu quando está de azar......” pareceu estranhamente verdadeira quando, no caminho, encontramos um acidente que fechou a estrada, impossibilitando o tráfego. Ficamos por cerca de uma hora parados na estrada. Quando liberou, consegui conduzir ela até o polo e chegar com apenas cinco minutos de atraso onde eu deveria dar aula. Sei que é difícil de acreditar nesta situação, mas é a verdade. Não, não sou mentiroso, sou otário.

8 - Quando tudo parece dar certo .....

Há alguns anos, juntamente com um colega de Universidade, ajudei a desenvolver um sistema de Educação à Distância.
Estes sistemas para serem utilizados pela internet, ainda eram novidade e nos parecia um mercado bastante promissor. Depois de meses de desenvolvimento, realizamos mais um bom período de testes, e parecia que o sistema estava “redondo”.
Este meu colega, se encarregou de toda a parte comercial e eu da educacional. Eu achava que a parte comercial estava nas mãos corretas quando ele me disse que havia conseguido gratuitamente um espaço em uma feira de educação. Era a porta ideal a ser aberta.
Acertamos que eu ficaria no stand, enquanto ele faria os contatos comerciais. Eu fazia as demonstrações e ele buscava os interessados.
Logo no primeiro dia, na hora do almoço ele voltou animado, me contando que havia conversado na indústria com uma grande indústria e que após apresentar as funcionalidades, teria ouvido como resposta: “era justamente isto que estávamos procurando!”.
Quando ele me contou, eu vibrei. Logo na primeira tentativa! Recordo que até fiz uma piada. “Será que Deus é sócio oculto na empresa?” Eu não me continha de felicidade. Ao final do primeiro dia, ele havia feito mais dois contatos na parte da tarde que também teriam apresentado igual interesse.
Eu não acreditava. Parece que havíamos acertado em cheio nos anseios do mercado. Ainda bem este meu colega cuidava da parte comercial! Logo pagaríamos todas as dívidas e começaríamos a ganhar dinheiro.
Mais dois dias de feira e uma dúzia de contatos haviam sido feitos,  sendo praticamente todos eles “promissores”.
Continuamos os testes e adaptações no sistema até que cerca de um mês após o final da feira, eu não havia visto nenhum contato sendo desenvolvido. Então resolvi questionar se todos aqueles contatos, ou parte deles, não iriam ser desenvolvidos.
Recebi como resposta que ele não tinha tempo!
Dizem que para bom entendedor, meia palavra basta! Acho que não fui bom entendedor. Tanto que continuei no projeto, acreditando no sucesso futuro.
Pouco tempo depois, ele iniciou os contatos para montagem de um determinado curso através da internet, fazendo uso do nosso sistema.
Numa das idas para discutir o fechamento do contrato, ouvi dele “pretendo até o final do ano gastar pelo menos um milhão na montagem de uma creche!”.
Estranhei, claro, até então não havia entrado um único centavo e ele já “gastava por conta!”. Estávamos já no segundo semestre, agosto ou setembro, e o final do ano não estava longe.
Nesta conversa ele disse ainda, que “logo estaríamos com 200.000 alunos no curso, pois era um curso que “todo mundo estava procurando”.
Num daqueles “acessos de lucidez” deu falei: “quando chegar a 5.000 eu vou comprar rojões para comemorar!”. Ouvi como resposta que eu não sabia nada, e que por isso estava sendo pessimista.
Para encurtar a história, o curso não chegou a ter 200 alunos no total.  Acho que fui até muito otimista ao falar em 5.000. Me recordo que a explicação era que as pessoas ainda não estavam preparadas para o curso que nós montamos.
Acho que posso dizer que para um bom otário meia mentira basta! Eu ainda saí feliz, além de duro, achando que éramos a vanguarda da vanguarda. Até me senti um pouco Steve Jobs! (Ausência total de “desconfiometria”!)
Continuamos a desenvolver o sistema, até que conseguimos colocar o mesmo em uma escola muito bem ranqueada na época nos exames do ENEM[1]. Eu, mesmo não sendo responsável pela área comercial, enxergava na oportunidade, uma porta de entrada para outras escolas, visto que o estabelecimento onde estávamos era muito bem conceituado.
Os rendimentos eram bons. E constantemente eu buscava ajustar totalmente o sistema ao nosso principal cliente. Na verdade o único.
Eu ia diariamente à escola e qualquer ajuste que eu julgava necessário, ligava para a equipe de desenvolvimento e deixava como parecia o ideal para a escola.
No segundo ano da parceria, aumentamos o número de alunos atendidos, dentro da mesma escola, e com consequente aumento dos rendimentos.
Foi aí que fui comunicado por este colega, que era sócio majoritário na empresa, que não poderia solicitar mais nenhuma adequação do sistema para a escola. Segundo ele, não poderíamos nos adaptar ao cliente, mas o cliente é que deveria se adaptar a nós!
Aquilo soou estranho! Eu acreditava na máxima popular de que o cliente sempre tem razão. Mas ele insistiu e fechou a questão. Eu era sócio minoritário e não tive como modificar a situação. Ele alegava que éramos “muito mais inteligentes do que aqueles caras da escola!”. No meu simplório entender, se realmente fôssemos, seríamos nós os dirigentes da escola e não eles.
Mas mantive a situação como foi ordenado. No final do ano, ocorreu o que eu já vinha alertando a ele. O contrato não foi renovado! E ficamos com uma mão na frente e outra atrás!
Ainda ouvi que “aquele pessoal não estava preparado para o nosso sistema!”. Desta vez não me senti mais vanguarda, mas otário.
Depois desta escola, não conseguimos mais implantar o sistema em nenhuma outra. Já haviam plataformas gratuitas como o Moodle, que inviabilizava a operação.
Fiquei feliz quando ele falou que queria comprar meus 15% da empresa. De pronto aceitei e assinei tudo. Eu achava que ia receber alguma coisa! Passei recibo de otário.
Ele continuou com projetos mirabolantes, sempre com vista a lucros elevadíssimos, sendo que nenhum decolou, sequer iniciou, na maioria dos casos.
Se por um lado me senti aliviado por não estar mais em canoas furadas nestes projetos, na condição de sócio, por outro lado, tinha a sensação de que havia gente mais otária do que eu!
Na verdade quem “identificou” o negócio “promissor” com este colega, foi minha esposa de então. Ela que me estimulava a passar vários dias fora de casa, em outra cidade, participando do desenvolvimento do sistema. Como eu sempre me achei sem grande faro para identificação de negócios, imaginei que ela estava descobrindo um filão maravilhoso para mim.
Isto foi um pouco antes do descarte e substituição (não necessariamente nesta ordem!).
Acho que ela não era também uma excelente consultora de negócios! E nem eu um bom identificador de ciladas.



[1] Exame Nacional do Ensino Médio

7 - Ser otário é .....

Acho que muitos devem se recordar de uma sério de histórias em quadrinhos chamada “Amar é ....”, onde um casal definia situações onde se procurava definir o que é amar.
Dentro da vertente lúdica que busquei para manter a lucidez, ou o que sobrou dela, criando uma série chamada “ser otário é...”.
Anteriormente já disse que havia criado a “otarimicina”, que seria um componente detectável no sangue, de forma a se medir o tanto de otário que uma pessoa seria.
Este nível poderia variar de “traços”, a valores espantosos, onde no primeiro caso, poderíamos situar aquele que praticamente não faz papel de otário, até aquele que podemos chamar de “otário praticante”.
Infelizmente não consigo me situar nas proximidades do primeiro grupo, visto que meu histórico de vida não aponta baixa frequência no papel em questão.
Com esta mesma visão lúdica, sempre procurei criar interpretações engraçadas, que permitissem o alívio da dor interior que se sente quando se faz papel de otário. Ao menos não dói muito quando imaginamos a situação como a cena de um filme. Rimos da situação, até que nos damos conta de que somos o ator principal da trama.
Me recordo de um cartoon de um desenhista onde o personagem entra em um pavilhão de espelhos e fica rindo diante da reflexão deformada de sua imagem, ora sendo gordo, ora magro, ora torto. Até que na saída da sala, ele se depara com um espelho plano; momento em que toma consciência de que ria de si próprio.
Pois é, como costumo dizer, só dói quando eu respiro!
Dentro desta atitude auto protetiva de fazer piada, criei o “Troféu Otário Padrão[1]”, para premiar aqueles que se distinguiram na condição de otário em vários segmentos sociais.
Obviamente quando imaginei a premiação, já me vi recebendo, ainda em tenra idade, na categoria “otário prodígio”, em função da “Teoria ornitológica” que eu defendi com unhas e dentes até por volta de 12 anos de idade. Pode parecer que este episódio me marcou. Não, não parece, marcou mesmo, e muito. Nunca lidei bem com isso. Acho que dá para uns trinta anos de terapia
Brincava imaginariamente ainda com a criação de uma associação internacional de otários. Seria o “Otary Club[2]”, onde como nos moldes da Mensa[3], onde somente poderiam ser aceitos, aqueles que comprovassem ter “habilidades otáricas” que o diferenciassem da massa.
Sempre me imaginei recebendo o troféu, que nunca defini a forma. Hoje, avaliando, bem que poderia ser um pedaço de corda! Para combinar com a tentativa que houve de me venderem um pedaço de corda que teria enforcado o Tiradentes. Talvez uma lata cheia de esterco, ofereceria um design adequado.
Mas, a forma em si não tem importância. O fato é que eu seguramente figuraria entre os premiados. Infelizmente, com certa frequência.
Os premiados seriam matéria de capa em uma publicação chamada “Otários em Revista”, que seria nos mesmos moldes da revista Caras ou outras similares. Sempre procurando causar inveja ao que não conseguiram aparecer na publicação. Poderíamos penar, inclusive, em uma matéria anual na “Ilha dos Otários[4]”, onde os convidados fariam merchandising grátis de diversos produtos.
Ser otário é .... votar em quem a televisão mandar!
Neste quesito, olhando pela ótica da especialização, quase aparece uma “mancha” na minha “capivara[5]”. Quando da eleição de Fernando Collor de Mello, eu não votei nele!
Inteligência? Não sei. Talvez um “acesso de lucidez”! Afinal ninguém é otário o tempo todo. Ao menos eu assim imagino.
Meses antes das eleições, a televisão (notadamente a Rede Globo) apresentava um jovem governador do estado de Alagoas, que havia ficado com fama de “caçador de marajás”, em função de sua cruzada contra os autos salários pagos em diversas autarquias e repartições públicas em seu estado. Não que fosse uma característica única local. Sempre foi praga que se alastrou por todo o país.
Mas parece que havia alguém disposto a “cortar o mal pela raiz”. Me recordo de que quando assistia as matérias na TV, eu imaginava “é de um presidente como este que o país precisa!”. (Eu ganhei um cavalo, você viu ele por aí?)
Quando ela apareceu como candidato eu comecei a achar que o país tinha jeito! Vibrei e fiquei esperando o dia para escolher aquele candidato.
Mas, sabe aquele ditado popular “é bom demais para ser verdade”? Acho que foi o que aconteceu comigo. E na reta final, mudei meu voto. E deu no que deu, com cerca de dois anos de mandato, ele foi “convidado a se retirar”.
Ao menos eu podia dizer que não havia sido responsável!
Engraçado como ao se escrever, vão retornando fatos ocorridos que marcam bem a imagem de quem com regular frequência fez papel de otário.
Acho que uma das principais características de um bom otário é a sua credulidade. Neste quesito, acho que sempre fui bastante crédulo. Eu sempre tive o hábito de achar que o que as pessoas falaram é o que elas falaram. Sempre fui partidário da coerência. Ou seja, sempre achei que deveria prestar contas do que eu disse.
Cito um caso de um período que fui sócio de uma loja de produtos de informática. Placas de rede, ainda eram novidade. Havia uma marca famosa e as que chamávamos de “xing ling”, ou seja genéricas “made in China”.
Um dia um cliente me perguntou o preço de placa de rede. Eu simplesmente olhei na listagem de preços e falei o preço. Eu tinha pego o preço de uma placa “xing ling” e a que estava na vitrine era uma “de marca”.
No mesmo dia o cliente voltou querendo comprar a placa. Quando me dei conta do erro (a de marca custava o triplo), como me recordava do que eu havia dito, vendi a placa “genérica” pelo preço da “de marca”, como forma de honrar o que eu havia dito.
Recordo que alguns colegas da época acharam que fiz papel de otário ao honrar o que eu havia dito. Bem, tive prejuízo, talvez isso fosse um indicativo de que eu deveria ter enrolado o cliente, o tanto quanto fosse possível.
Esta situação de acreditar é emblemática. Certa vez, procurei uma pessoa, bastante influente.  Fui conversar com ele e disse, vim aqui te “mostrar a bunda! Estou precisando de ajuda para voltar a dar aulas e como sei que você é bem relacionado, vim pedir a sua ajuda!”.
A pessoa, que eu conhecia de longa data, se apresentou bastante solícita. Ele inclusive me disse que eu deveria mandar o meu Currículo para o e mail dele, para que eu nem tivesse despesas para imprimir. Fiquei, claro, feliz com a empatia encontrada. Na mesma noite mandei o currículo para ele.
Passado um mês, fui procura-lo para ver se tinha conseguido algum contato. Ele me disse que não tinha tido tempo. Eu me censurei pela ansiedade (eu sentia fortes dores no órgão sensível – o bolso) e fui embora. Não querendo ser rotulado de ansioso, esperei mais 3 meses e voltei para consultar a tal. Fui informado que ainda não havia tido tempo.
Não querendo atrapalhar o tempo da pessoa, decidi tomar uma medida “protetiva”. Aguardei por mais seis meses e voltei. A resposta foi a mesma.
Na oportunidade, quando saí do local onde ele trabalhava, passei por uma praça bem cuidada. Fiquei com medo de correr para ficar de quatro comendo grama. Sentia uma estranha vontade de relinchar.
Nesta mesma linha da credulidade, quando da minha separação (descarte e substituição, não necessariamente nesta ordem), foi dado como motivo, que minha então esposa havia descoberto que não servia para conviver com ninguém. Eu achei o argumento inatacável. Só estranhei ela haver levado pouco mais de duas décadas para descobrir.
Eu falei para ela que gostaria de poder entender melhor o que tinha havido. Ela concordou e disse que mais para frente conversaríamos. A gente se separava e conversava depois. Apesar de parecer uma lógica reversa, eu concordei.
Esperei dois ou três meses pelo contato, e como o mesmo não ocorreu, achei que deveria tomar a iniciativa do diálogo. Liguei para ela e expliquei do que se tratava. Fui informado que não havia nada que se conversar! Ainda argumentei que havíamos acordado de conversarmos posteriormente. Ela disse se recordar (fiquei feliz por não ter sido uma alucinação), mas disse que da parte dela não havia o que conversar. Eu mesmo tomei a inciativa de desligar o telefone.
Evitei olhar para algum espelho, pois sabia que não iria gostar da imagem.
Se for descrever todos os casos onde pequei pela credulidade, estaria entrando em uma rotina redacional interminável, com umas poucas exceções.
Estranhamente, nunca fui de acreditar em liquidações! Mesmo não sendo ético, eu chegava a quase rir das pessoas que acreditavam que estavam comprando produtos com 90% de desconto (ou off, que fica mais chique).
Meu primeiro emprego foi como vendedor em uma loja de sapatos. Eu tinha um salário um pouco abaixo de irrisório, e deveria faturar o resto com comissão das vendas.
Nos primeiros tempos eu me empenhava em atender ao que o cliente ou a cliente queria. Desnecessário dizer que meus ganhos eram parcos. Havia um vendedor bem antigo que era o vendedor mais experiente da loja. Acho que por solidariedade misericordiosa, resolveu me dar “dicas” de como vender mais. Aprendi a contar histórias do tipo “este sapato está com este preço por engano do gerente, ele custa o dobro!.
Eu não me sentia bem inventando aquelas histórias, mas consegui elevar os meus ganhos. Algumas vezes o tal vendedor experiente me dizia “olha lá, novato, ali é pato bom[6], vai lá depenar ele!”.
Isto me faz recordar de uma piada sobre corretor de imóveis:
Um sujeito procura um corretor para comprar uma casa. O corretor lhe apresenta uma casa que o interessado gostou. Quando pergunta o preço, se assusta: um milhão de reais!.
O corretor justificou: fica ao lado de uma escola, seu filhos não vão precisar de transporte, tem uma delegacia na rua, a sua família vai estar segura e tem feira na porta, de forma que sempre vai poder contar com produtos fresquinhos.
Alguns meses depois, o proprietário, que havia adquirido o imóvel precisa se mudar de cidade e chama o mesmo corretor para intermediar. Ele avalia a casa em quinhentos mil reais, a metade do valor pelo qual havia negociado o imóvel.
Ele (o corretor) justificou: tem escola ao lado e as crianças vivem fazendo bagunça na rua, está perto de uma delegacia e sempre passam criminosos na porta e, finalmente, tem feira na rua, que deixa tudo imundo!
Sempre tive dificuldades em dar crédito a quem quer vender algo.
Igual situação com solicitação de contribuição para entidades que prestam assistência. Numa cidade onde morei, havia um sujeito que rotineiramente passava para pedir contribuições para um tal “Instituto de Cegos Santa Luzia”. Como na cidade havia uma instituição com este nome, a minha esposa costumava contribuir. Uma vez, perto do final do ano, a pessoa passou com diferença de cerca e duas semanas, pedindo nova contribuição. Eu atendi e comentei o fato da proximidade da visita. Ele me explicou que era por causa de ser época do décimo terceiro salário. Eu simplesmente virei as costas e entrei. Quando minha esposa voltou eu comentei o fato. Foi só aí que ela reparou que no recibo da tal instituição estava um endereço de outra cidade, da Capital.
Na minha primeira viagem para a tal cidade, fui procurar o endereço. Claro, não havia a instituição. Foi uma espécie de alívio perceber que como otário, eu não estava só no mundo.
Mais recentemente recebi um telefonema pedindo contribuição para uma entidade que não me recordo o nome. A telefonista me explicou que eu havia sido “selecionado para poder contribuir” com a tal entidade. Por alguns segundos cheguei a achar que se tratava de uma alucinação. Educadamente desliguei o telefone para a “alucinação” passar.
Como falei anteriormente, fui escoteiro na infância. No escotismo, costumamos dizer “uma vez escoteiro, sempre escoteiro!”. Sempre gostei de alguns princípios do movimento e uma vez, já “otário adulto”, resolvi provar que o escotismo era realmente para todos, e não somente para os garotos e garotas de classe média que eu via serem atendidos.
Resolvi fundar um grupo dentro de uma favela. Queria mostrar que poderíamos fazer a diferença para aqueles jovens que eu chamava de PPP (portadores de precariedade pecuniária). Claro, para entrar na favela, precisei falar tanto com “Deus”, como com o “Diabo”, na verdade, mais com o segundo.
Acho que meu lado de insistente foi válido, pois toquei o grupo por cerca de três anos, com a companhia de minha segunda esposa. Tentávamos levar as crianças para atividades externas, mas quase sempre esbarrávamos numa limitação que parecia insolúvel. A maioria das crianças não tinham recursos sequer para pagar a passagem do ônibus.
Chegamos a participar  de algumas atividades externas, mas não de forma incólume. Recordo-me que em uma atividade ouvi de uma criança o comentário “aqueles ali são os favelados”.
Entendo que este comentário não deve ter nascido na boca de uma criança. Ela devia estar apenas repetindo o que ouviu de um adulto.
Em um determinado momento, haveria um acampamento estadual. E que queria levar as nossas crianças para participar.  De antemão sabia que o custo estava muito acima das possibilidades deles. Mas havia um fundo que custeava até a metade das despesas da atividade. Eu sabia que as nossas crianças teriam este apoio. Elas precisavam “somente” da outra parte.
Fui buscar patrocínio em empresas de grande porte. Em uma delas precisei ouvir, depois de expor o projeto “deixa ver se eu entendi, você quer dizer que são todos favelados?”.
A conversa acabou logo ali e no dia seguinte recebi a resposta, que aquelas crianças não se enquadravam no perfil que aquela empresa consumava ajudar.
Recordo-me que desliguei o telefone com a dúvida se ser pobre seria um crime, ou já era o castigo.
O que mais me doía, é que tinha ouvido de uma menina que fazia parte do grupo: “toda vez que eu varro o bar da minha madrinha, ela me dá um real. Vou ajuntar para poder ir acampar.” Em sua ingenuidade infantil, ela não tinha se apercebido que precisaria varrer o bar 120 vezes, ou seja diariamente por quatro meses.
Confesso que não segurei as lágrimas ao contar para aquelas crianças que eu tinha fracassado na missão de obter patrocínio para o acampamento deles.
Depois desse fracasso, “perdi o rebolado[7]”, e fui desanimando até desistir do projeto. Tive de “botar o rabo no meio das pernas” e admitir que aquelas crianças não eram iguais às outras que eu conhecia no escotismo!
É altamente frustrante quando você não consegue comprovar suas próprias crenças! (vide o caso da cegonha que eu não consegui comprovar)
A ideia de um grupo escoteiro para carentes vinha desde o tempo que ouvi  um chefe escoteiro dizendo: “você tem de valorizar o jovem que se esforçou e foi para o Jamboree[8] na Tailândia.”.
Eu dizia para o tal chefe que eu deveria realmente valorizar aquele jovem que foi no acampamento pois ele tinha cinco mil dólares para isso! Isto sim era o valor dele!
Claro, me recordava dos acampamentos que deixei de ir, na minha infância, por não conseguir obter os recursos necessários. E aquilo me fazia sentir menos escoteiro que os demais!



[1] A brincadeira é com o Troféu Operário Padrão, que era oferecido para operários da indústria, patrocinado pelo Jornal O Globo. Tinha como sub título “modelo na família e na sociedade”.
[2] Brincadeira com o nome do Rotary Club, sem qualquer conotação desrespeitosa com a entidade.
[3] Mensa é uma associação internacional de super dotados. Até onde sei somente são aceitos como associados, pessoas com QI acima de 130.
[4] Referência à Ilha de Caras, da revista Caras.
[5] A expressão “capivara” é uma gíria para ficha criminal.
[6] A expressão pato bom era para indicar um potencial cliente altamente sugestionável.
[7] Expressão popular para desanimar.
[8] Jamboree é um acampamento internacional realizado a cada quatro anos, sempre em um país diferente.

5 - Outras latitudes

Mudei-me, anos depois da tal cidade para a região amazônica. Foi uma experiência de vida interessante.
Mas, sem delongas, vou direto ao assunto.
Faço uma pequena digressão para recordar a Lenda do Rei Midas, que dizia que tudo o que aquele Rei tocava, virava ouro.
Meu irmão, uma vez comentando minha inabilidade financeira, dizia que eu era parente de um primo do Rei Midas, o Rei Medras, que tudo o que tocava virava merda!
O problema é que eu no fundo achava que aquela comparação hilária, tinha um certo fundo de verdade.
Sempre levei na brincadeira a comparação, mas nesta época, na empresa onde eu trabalhava todo mundo estava investindo em ações. Era uma fase onde os Clubes de Ações estavam em alta.
Eu continuava colocando o que sobrava na Poupança, que rendia bem menos. Depois de algum tempo acabei seduzido pelo “canto da sereia” e resolvi entrar em um clube de ações.
Parece piada, mas assim que eu entrei, as ações começaram entrar em baixa! Tudo começou quando eu entrei! Fiquei com uma tremenda fama de pé frio!
Chegou um ponto onde os colegas me apresentavam uma série de investimentos e me questionavam qual eu escolheria. Assim que eu indicava algum eles logo diziam: ”então é bom ficar longe deste!”.
A autoestima não ia nada bem!

Na verdade, nunca esteve!

4 - Carga genética?

Questionar se o fato de se ser otário tem características hereditárias é interessante. Não, não tenho nenhum estudo científico a citar. Se tal ocorresse, seguramente teria sido publicado na Nature, que é uma referência pessoal como revista científica séria, apesar de ter publicado o Experimento Pons e Fleishmann[1].
O meu questionamento, nada tem de científico, mas percorre o caminho do lúdico, para tentar rir da própria desgraça, e fazer as coisas parecerem engraçadas, como se fosse um filme, um storyboard[2].
Sempre que me recordo, da minha condição de otário praticante, como se fosse uma categoria intelectual/social, ou assemelhado, sempre chegam imagens da minha infância, onde com esmerada frequência, eu desempenhava o papel. Juntamente retornam imagens familiares onde algum membro da família fazia o papel.
Como falei em hereditariedade me referi a ter herdado a “otarimicina”[3]. Me recordo de alguns fatos vividos na infância e que parecem espelhar que a prática de se ser otário, já vem de gerações familiares anteriores.
Meu pai era bancário. E no banco onde trabalhava, um dia foi convidado a conhecer um novo loteamento que uma construtora, cliente do banco, estava construindo.
Me recordo que fomos lá conhecer. Cruzamos por Osasco, trafegando por boa parte da Avenida dos Autonomistas, que tinha trechos sem calçamento e chegamos no tal local. Era longe (tão tão distante, como nos desenhos do Sherek) mesmo, foram algumas horas para chegar lá.
Cabe lembrar que na época não havia a Rodovia Castello Branco. Me recordo que meu pai comentava que havia um plano antigo de construção da Rodovia do Oeste, que se supunha um dia seria construída.
No local do loteamento, havia uma maquete mostrando como iria ficar. Me recordo que achei muito bonita. Eu adorava maquetes. Até hoje gosto de admirar.
Naquele momento, que meu pai, ao ver os preços, chegou a pensar em comprar 3 lotes vizinhos e fazer uma chácara de final de semana. Tão baratos eram os lotes que dava para comprar 3!
Mas, ato contínuo, ele disse: “isto nunca vai pra frente, ainda mais neste lugar!”
Para encurtar a história, estávamos no lançamento do que viria a ser AlphaVille. E perdemos o bonde da história em termos de investimento.
Mas mesmo com este ocorrido, não cheguei a pensar em não ver meu pai como referência em conhecimentos financeiros. Afinal ele trabalhava em um grande banco! Tudo bem, o banco depois faliu, mas não foi culpa dele.
Anos depois, casado, morando naquela tal cidade pequena. Comentei com meu pai que estavam construindo um conjunto residencial na cidade. Em uma das visitas que ele me fez, de pronto me aconselhou a comprar uma.
Eu olhava o projeto e me parecia “uma fria”. Era uma casa de 3 quartos, com varanda, área de serviço, sala de dois ambientes e tudo isso dentro de uma área de 70 metros quadrados. Apenas como referência, na planta a área de “dependências de empregada” (sim, tinha mais isto), aparecia na planta abreviada como “dep. empreg”; nem na planta dava para escrever por extenso.
Acho que eu tinha “acessos de lucidez” quando me mostrava refratário a fazer tal investimento. Na verdade, inclusive, havia sido desaconselhado por amigos. Mas meu pai continuava com a sua pregação financeira. E eu, como nunca me considerei um gênio dos negócios, sempre escutava os conselhos de quem, naquela época, era meu consultor financeiro.
Recordo-me que em um dos momentos finais de minha “conversão”, fui seduzido pela frase: “meu filho, nunca ninguém perdeu dinheiro com imóvel!”
Aquilo parecia um mantra que eu deveria repetir até assinar o contrato, que me foi recomendado para fazer o mais longo possível.
E assim o fiz.
Era um tal de “Plano de equivalência salarial”, que garantia que as prestações não subiriam além do que subiria a minha remuneração. Tudo isso, me fazia sentir um grande investidor, que graças à consultoria, dava os primeiros passos para o sucesso.
Acho que com o tempo, os “acessos de lucidez” foram ficando mais frequentes e comecei a perceber a “cagada” (ainda que seja um termo chulo, ele me parece adequado à minha situação de então) que tinha feito.
O tal conjunto de casas ficava ao lado de uma estrada de ferro que transportava minério. Com composições de uma centena de vagões. Acho que fica fácil perceber que a casa tinha uma “condição diferenciada de estabilidade”, de forma que eu não precisaria adquirir uma cama vibratória.
Como se tal não bastasse, após receber as chaves, as prestações começaram a subir mais do que o meu salário. O que comprometia apenas 8% dos meus ganhos, em menos de dois anos já ultrapassava um terço.
Fui reclamar no BNH[4] reclamar. Juro que fui acreditando que iria resolver o problema. E saí de lá com vontade de relinchar. Me falaram de fatores de correção, e justificaram que o aumento estava dentro do pactuado.
Aqueles 50 km até chegar em casa, foram longos. Eu alternava estados depressivos com momentos de desespero, enquanto dirigia.
Para chegar na minha casa, eu passava por uma avenida que dava visão para o tal conjunto residencial. Eu virei a minha cabeça para o lado para não ver. Foi a forma que encontrei naquele momento para não me sentir ainda mais otário.
Ao chegar em casa, minha primeira reação foi a de bater a cabeça na parede. Minha esposa achou por demais estranho. Eu expliquei para ela. Ela tentou me acalmar, mas eu tinha a nítida sensação de que ela pensava “eu sabia que ia dar merda”.
Pensei que a primeira saída seria de alugar a casa. Cabe aqui dizer algo a meu favor. Eu nunca fui morar na tal casa! Ao menos isto indica que eu tinha percebido a fria em que tinha entrado.
Comecei a consultar. Eu pagava de prestação Cr$ 65.000 (sessenta e cinco mil cruzeiros[5]) e o máximo que eu conseguiria de aluguel era de Cr$ 15.000 (quinze mil cruzeiros). Estava evidente que eu precisava me livrar do “abacaxi”.
Meu estado de desespero era tanto, que eu, que já havia pago Cr$ 1.200.000 (um milhão e duzentos mil cruzeiros), estava disposto a passar a casa para alguém que fosse mais otário que eu, de graça.
Eu até fiquei feliz quando soube que havia uma pessoa disposta a adquirir o imóvel e ainda me daria Cr$ 400.000 (quatrocentos mil cruzeiros). Eu achava que estava no lucro!!
Fechei o negócio na hora. Mas como para transferir o financiamento para o nome dele era caríssimo, fizemos um “contrato de gaveta” de forma que terminado o prazo do financiamento o imóvel seria passado para o nome dele.
Voltei a dormir. E quando ia para casa até tinha coragem de olhar para o conjunto residencial ao longe. Dava até uma risadinha do tipo “viu como você foi esperto!”.
Mas “alegria de otário dura pouco”[6]. Logo o comprador não conseguia mais pagar as prestações e começaram a chegar as cobranças em meu nome.
Ingenuamente fui ao BNH, com o contrato de gávea na mão, explicar a situação. O pessoal do banco até que foi gentil e me explicou que o único mutuário[7] que eles conheciam era eu, e era de quem deveriam cobrar o atraso.
Novamente aquela vontade de relinchar voltou. Saí andando pela cidade meio que sem rumo. Mas como tinha um trabalho a fazer em uma corretora de valores, passei por lá e comentei o fato com um colega. Ele, solidariamente me falou que tinha um amigo advogado no andar inferior que poderia me mostrar os caminhos.
Depois de contar toda a situação, o advogado disse “Seu caso é muito simples! Você recupera a casa no momento em que quiser!”.
Eu expliquei que o que eu queria era obrigar a pessoa a ficar com a casa e pagar. Notei certa estranheza na face dele.
Ele me explicou que se o comprador não quitasse a dívida, a casa iria para leilão e como não conseguiriam vender a casa pelo valor do saldo devedor eu ficaria impedido de fazer novo financiamento imobiliário.
E me citou o exemplo do divórcio[8], dizendo que a lei deve proteger os incautos (no caso, eu). A pessoa pode se casar e ter errado. Então existe o divórcio. Mas só é permitido um divórcio, como forma de evitar que o cidadão cometa erros sequenciais.
Não vou dizer que aquela explicação me deixou com a autoestima em estado de elevação. Muito pelo contrário! Mas não ficou por aí!
Ele continuou: “vejo que você é uma pessoa ingênua, não vá agora você comprar um consórcio!”.
Senti a coluna vertebral gelar! Eu havia comprado um consórcio havia duas semanas. E por recomendação de meu consultor financeiro! Claro, fiquei calado para não “passar recibo”, e saí apressadamente de lá.
Voltei para casa e contei tudo para minha esposa. Ela foi extremamente sincera comigo. “Eu acho que você deveria destituir seu pai do cargo de consultor financeiro!” Foi o que eu fiz!
Naquela época tive de reavivar a teoria do ineditismo. Como meu pai havia garantido que nunca ninguém havia perdido dinheiro com imóvel, então eu havia sido o primeiro!
Desde então, imóveis e consórcio passaram a ser tabu na minha vida.



[1] Experimento de Fusão Nuclear a Frio, que é considerado por muitos como um fiasco ou mesmo um embuste.
[2] Storyboard são organizadores gráficos tais como uma série de ilustrações ou imagens arranjadas em sequência com o propósito de pré-visualizar um filme, animação ou gráfico animado, incluindo elementos interativos em websites.
[3] Termo lúdico que criei para explicar a estranha habilidade para o papel. Seria imaginariamente um componente químico que daria maior ou menor capacidade de se ser otário.
[4] BNH – Banco Nacional da Habitação – agente financeiro do governo federal.
[5] Padrão monetário da época
[6] Releitura pessoal do ditado “alegria de pobre dura pouco”
[7] Pessoa que fez o financiamento imobiliário
[8] O divórcio era uma novidade recém-aprovada no país